terça-feira, 11 de outubro de 2011

O MEU PAÍS ESTÀ DOENTE!

 
 
O meu país está doente
Anda ferido de morte
Cuidar dele é tão urgente
Já não sei da sua sorte.

Com secura na garganta,
Pouco lhe corre nas veias,
Até ao mar de água tanta
Onde já vomitou cheias.

O corpo negro, queimado
Mas quem socorro lhe presta?
Está a perder o penteado
Do verde da floresta.

Está doente e mirrado;
Deus queira que fique bom!
Anda tão desidratado,
Tão poucos lhe dão a mão.

A custo vai respirando
Ainda dói ver sofrer!
Está doente e piorando,
O meu país está a morrer.

José Faria

O MEU VIZINHO

 

Se o meu vizinho soubesse,

A importância que tem;
Se o que diz e fizesse
Sempre o fizesse por bem:

Não seria o que parece,
Se para o bem se detém,
Se mais cuidado tivesse;
Ao dizer mal de alguém.

Se olhar mais o lado bom,
O condómino vizinho;
Mais valor tem e merece.

Cresce a boa relação,
Ganha ele outro caminho
E já não é o que parece.

José Faria

sábado, 1 de outubro de 2011

DESABAFO

 
Nunca o medo em mim morou,
Nem o credo em mim suou,
Nem ideia manipulou,
Não de outro, de mim sou!
Não sirvo ideia que ventou,
Minha mente não furou.
Fique quem de min falou,
Que para si nunca olhou;
Nem tão pouco se julgou:
Do nada feito escapou,
Se o vazio lhe ficou,
Em nada participou,
Trabalho que censurou!
Sem lágrimas, como chorou?
Se com álcool soluçou,
A razão não encontrou,
Muito mais se chateou,
Não foi ele que falou!
Pois se a mente se esforçou,
E a razão não encontrou,
Muito mais se afundou.
E o juízo se afogou,
No líquido que encontrou
E nele se encharcou:
Destruição que lhe custou
O salário que ganhou.
E teso, teso ficou!
Em algo nunca acertou
Porque o vício não largou,
E seu caminho sempre errou!
Porque quis, pois se julgou,
Perto daquilo que sou,
E em caminho algum entrou.
Liberdade sua, embebedou!
Que para sempre o enganou,
E que revolta o ser que sou!
Caótico jamais estou,
No outorgar nunca errou,
Por outro ideal lutou,
Nesse óbice jamais estou,
Porque a chegar aqui custou!
Se sem sentido o cogitou
E se por nada se empolou,
Má ideia o baralhou:
Jamais correcto pensou.
Lutar o vício? - Não estou!
Cansado a força parou!
Não vêem quanto me dou?
Se a mentira abalroou,
A razão que me dotou,
E já que ninguém me escutou,
Jamais por aqui estou.
Se novos-ricos o frustou,
Sobre os quais acreditou,
Se na imprensa elogiou,
O que todo o cidadão aprovou,
Sociais normas que elevou,
Aquilo que somos e sou:
E se meia dúzia usurpou,
A verdade que falou,
Do colectivo onde estou...
Consciência vomitou,
Aquilo que eu era e sou.
P’ra quem sempre acreditou,
Na boa fé que o rodeou,
Quando novo espaço habitou,
Enganado se julgou!
Pois para todos trabalhou,
No servir que orientou,
Que a beleza ajardinou,
Que a natureza sempre amou!
E tudo se afundou,
Pois meia dúzia alienou,
Os valores que nos juntou!
A alma leve me ficou,
E o corpo força ganhou.
No passado já não estou;
Julgue-me quem se enganou!
Jamais o que vos era sou!
Jamais comigo alguém falou!
Jamais minha alma chorou!
Jamais do colectivo sou!
Pelo conformismo que assentou,
E nossos valores derrotou!
Jamais vossa célula sou!
Jamais! Jamais...
Adeus!
Eu me vou!..

 José Faria

CAPELINHA ANTIGA

CAPELA AO SENHOR DOS AFLITOS
DE PETROUZOS OU PEDROUZOS
Freguesia maiata de Pedrouços


O MILAGRE

Não podia deixar de aqui registar e valorizar a lenda, quase desconhecida da maioria dos meus conterrâneos, sobre as origens da capelinha erigida por promessa em louvor ao Senhor dos Aflitos, na "cidade" de Petrauzos ou Pedrouzos há mais de cinco séculos e meio.
Segundo conta a história nalguns escritos antigos, um acontecimento aparentemente banal que naturalmente se desenrolou por coincidência, mas que se formou milagre por volta de 1440.
 
Assim, apenas procuro reconstruir este acontecimento de que reza a lenda de forma muito fragmentada e de débil consistência, que foi passando de geração em geração, perdendo ou ganhando aqui e ali pequenos desvios de pormenor. Julgo enriquecer essa lenda ao reunir todos os pormenores que fui auscultando, procurando embeleza-la literalmente e devolver-lhe alguma veracidade de enriquecimento cultural.

Dizem que... Andava uma mulher do povo atarefada na lide de estender a rouparia sobre penedos, giestas e mato, no pedregoso monte onde se situa hoje a igreja paroquial, construída em 1871 e ampliada entre 1926 e 1928, altura em que passou esta terra a freguesia eclesiástica a 8 de Setembro, para paróquia de Nossa Senhora da Natividade.
 
 
Nesse monte de penedia e bouça, à sombra das giestas, deitada sobre trapos e fetos, a criança de tenra idade aguardava ensonada o colo da roupeira, enquanto a fome e o choro da criança apressaram o gesto materno de a amamentar. 
A roupeira, mãe do povo apressada e cuidadosa, ergueu o cachopo nos braços e aconchegou-o ao peito, enquanto se senta numa rocha. 
Deitada sobre o colo da mãe, de boquita aberta e sôfrega, o cachopo procurava desesperado o mamilo da progenitora, que prontamente lhe solta a mama a descoberto sobre o franzino e tenro rosto.

Entretanto, o cheiro do leite atraíra uma cobra ou serpente que deslizou silenciosamente na sua direção, e lhe saltara para o regaço. Aflita e estática, assustadíssima... a mulher mais não fez do que rezar com toda a sua fé ao Senhor dos Aflitos, pedindo-lhe que a livrasse do réptil. E, parecendo obedecer a ordem divina, a cobra sem lhe provar o leite nem a morder, à mãe ou à criança,  deixou-se deslizar pelo avental até ao chão e foi de novo recolher-se no interior de uma brecha entre dois penedos a seus pés.
Acreditando tratar-se de milagre, a roupeira ajoelhou-se rezando e agradecendo ao Senhor por a escutar, prometendo mandar construir uma capela junto ao caminho na encosta do monte.
E é esta a Capela, "entalada" entre habitações que o desrespeito autárquico permitiu ao longo dos anos.
Há muito fechada, abriu-se de novo para se refrescar e dar o ar da sua graça e história, nas festas religiosas e profanas em honra da Senhora inventada e criada em Setembro de 1928 nesta terra da Maia, às portas da cidade do Porto, Areosa.


O MILAGRE
(Lenda de Pedrouços – Maia)

Andava a mulher na lida
Sobre as pedras a estender
Roupa lavada, espremida
Para secar e aquecer.

Andava a mulher na lida,
No cimo do monte a corar,
Rouparia sacudida,
E o cachopo a chorar.

 

Deitado em fetos e rama,
De fome chorava a criança
Ansiando o leite, a mama,
Amor de mãe logo a alcança.

Pega o cachopo no colo,
- Teve a lida que esperar;
Deu a mama, deu consolo
À criança a amamentar.

Pela brecha de um penedo,
Uma cobra ou serpente;
Tolheu a mulher de medo,
Ao surgir tão de repente,

Assustada a roupeira,
Pôs-se aflita a rezar.
Mas a serpente matreira
Foi o seu leite cheirar.

Com a cobra sobre o peito
A orar naquela hora
Que milagre fosse feito,
Que o bicho fosse embora.

Pela graça concedida,
Uma capela ali nasceu;
Naquele local erguida,
Como ao senhor prometeu.

O milagre está presente
Na cruz no seu interior
Mais o Senhor e serpente
Por devoção e louvor.
José Faria

VIDA DE PEDRA

DURA VIDA

A vida e labuta não menos dura do que a dos montantes pedreiros, que extraíam a pulso, ferro e fogo a pedra dos montes, encontra-se também no destino do seu produto acabado, extraído das pedreiras.
 
A pedra destinada à construção civil, onde os operários a encastelavam na construção de imóveis. Hoje, outros materiais vieram substituir a pedra, levando a pouco e pouco ao desaparecimento da sua extracção e dos artistas que a retalhavam e transformavam.
Mas também aí, nas obras, são as calosas mãos que vão criando a riqueza do património nacional, na construção civil, dos imóveis, pontes, túneis, auto estradas, fortalezas … cidades atrás de cidades, motor essencial da economia e da qualidade de vida das populações.

Afinal também por aí andei, nas pedreiras e nas obras, a partir dos onze anos, feito pequeno operário, no tempo em que as crianças tinham no trabalho mais uma forma ocupacional didáctica e construtiva, educacional. E recebia vaidosamente a minha féria semanal, que contribuía para o sustento da família de nove almas.
Por uns e por outros, deixei correr a pena da minha humilde veia poética para que, enfim, lembrasse e homenageasse esta “Dura Vida”.

                           DURA VIDA

 
Calosas mãos, sempre entorpecidas,
Seca a pele dura pelo cimento,
É também a branca cal esquecimento,
Só se mantém o saber em mãos feridas.

Saber de ti, qualidades esquecidas:
Noutros há onde não há esquecimento,
Que te dão, com fim no lucro, sofrimento:
Dilatando de riqueza ócias vidas.

Mais um dia sobrevives e são doridas,
As mãos que ao mundo dão aumento;
Dissipa-se o que é teu e de direito,
Restando a força nessa côdea que mastigas.

Sobre o solo as riquezas são erguidas,
Porque lutas contra a vida, contra o tempo:
De sadia existência há impedimento,
Quando às mãos que as cria são devidas.

Dão-te valor dóceis palavras fingidas!
Falsas razões, vás, que te são tormento:
Dá-te a fome obrigado ensinamento
E morrendo vais de forças emagrecidas.


Aos operários da construção