sábado, 1 de outubro de 2011

CAPELINHA ANTIGA

CAPELA AO SENHOR DOS AFLITOS
DE PETROUZOS OU PEDROUZOS
Freguesia maiata de Pedrouços


O MILAGRE

Não podia deixar de aqui registar e valorizar a lenda, quase desconhecida da maioria dos meus conterrâneos, sobre as origens da capelinha erigida por promessa em louvor ao Senhor dos Aflitos, na "cidade" de Petrauzos ou Pedrouzos há mais de cinco séculos e meio.
Segundo conta a história nalguns escritos antigos, um acontecimento aparentemente banal que naturalmente se desenrolou por coincidência, mas que se formou milagre por volta de 1440.
 
Assim, apenas procuro reconstruir este acontecimento de que reza a lenda de forma muito fragmentada e de débil consistência, que foi passando de geração em geração, perdendo ou ganhando aqui e ali pequenos desvios de pormenor. Julgo enriquecer essa lenda ao reunir todos os pormenores que fui auscultando, procurando embeleza-la literalmente e devolver-lhe alguma veracidade de enriquecimento cultural.

Dizem que... Andava uma mulher do povo atarefada na lide de estender a rouparia sobre penedos, giestas e mato, no pedregoso monte onde se situa hoje a igreja paroquial, construída em 1871 e ampliada entre 1926 e 1928, altura em que passou esta terra a freguesia eclesiástica a 8 de Setembro, para paróquia de Nossa Senhora da Natividade.
 
 
Nesse monte de penedia e bouça, à sombra das giestas, deitada sobre trapos e fetos, a criança de tenra idade aguardava ensonada o colo da roupeira, enquanto a fome e o choro da criança apressaram o gesto materno de a amamentar. 
A roupeira, mãe do povo apressada e cuidadosa, ergueu o cachopo nos braços e aconchegou-o ao peito, enquanto se senta numa rocha. 
Deitada sobre o colo da mãe, de boquita aberta e sôfrega, o cachopo procurava desesperado o mamilo da progenitora, que prontamente lhe solta a mama a descoberto sobre o franzino e tenro rosto.

Entretanto, o cheiro do leite atraíra uma cobra ou serpente que deslizou silenciosamente na sua direção, e lhe saltara para o regaço. Aflita e estática, assustadíssima... a mulher mais não fez do que rezar com toda a sua fé ao Senhor dos Aflitos, pedindo-lhe que a livrasse do réptil. E, parecendo obedecer a ordem divina, a cobra sem lhe provar o leite nem a morder, à mãe ou à criança,  deixou-se deslizar pelo avental até ao chão e foi de novo recolher-se no interior de uma brecha entre dois penedos a seus pés.
Acreditando tratar-se de milagre, a roupeira ajoelhou-se rezando e agradecendo ao Senhor por a escutar, prometendo mandar construir uma capela junto ao caminho na encosta do monte.
E é esta a Capela, "entalada" entre habitações que o desrespeito autárquico permitiu ao longo dos anos.
Há muito fechada, abriu-se de novo para se refrescar e dar o ar da sua graça e história, nas festas religiosas e profanas em honra da Senhora inventada e criada em Setembro de 1928 nesta terra da Maia, às portas da cidade do Porto, Areosa.


O MILAGRE
(Lenda de Pedrouços – Maia)

Andava a mulher na lida
Sobre as pedras a estender
Roupa lavada, espremida
Para secar e aquecer.

Andava a mulher na lida,
No cimo do monte a corar,
Rouparia sacudida,
E o cachopo a chorar.

 

Deitado em fetos e rama,
De fome chorava a criança
Ansiando o leite, a mama,
Amor de mãe logo a alcança.

Pega o cachopo no colo,
- Teve a lida que esperar;
Deu a mama, deu consolo
À criança a amamentar.

Pela brecha de um penedo,
Uma cobra ou serpente;
Tolheu a mulher de medo,
Ao surgir tão de repente,

Assustada a roupeira,
Pôs-se aflita a rezar.
Mas a serpente matreira
Foi o seu leite cheirar.

Com a cobra sobre o peito
A orar naquela hora
Que milagre fosse feito,
Que o bicho fosse embora.

Pela graça concedida,
Uma capela ali nasceu;
Naquele local erguida,
Como ao senhor prometeu.

O milagre está presente
Na cruz no seu interior
Mais o Senhor e serpente
Por devoção e louvor.
José Faria

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