segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

PUTOS EM PELOTE


Pé descalço na calçada,
Por carreiros e caminhos
Tão mexida ganapada
Na brincadeira e aos ninhos.

E no roubar das espigas
Com o lavrador ausente
Acomodavam barrigas
A dar letra à fome, ao dente.

Se o tempo quente apertava
Vinha o banho a qualquer hora
E a alegria chafurdava
Da ganapada de outrora.

Numa represa de rega,
Em pelote a pardalada;
Na água e lodo se esfrega,
No mergulho e na braçada.

Distraídos no banheiro ,
Já se estava a aproximar,
O lavrador sorrateiro
A roupa lhes foi tirar.

Pegou nela num braçado
Feita trouxa, foi-se embora,
E logo os putos à nora...
Olham num e noutro lado.

Por entre o milho andou
O bando a procurar,
Mas a roupa não achou,
Já com alguns a chorar.

O lavrador avistaram,
Com a roupa, campos fora.
E todos se interrogaram:
Como é que vamos embora?

Outra forma não acharam:
Deitaram pés ao carreiro,
Com as mãozitas taparam,
A pilita e o traseiro.

Lá foram nus, sempre a andar,
E a meio da caminhada,
Tantos mirones a olhar
Juventude envergonhada.

Quase pedindo esmolinha
Ao lavrador a apelar,
Que lhes desse a roupinha
Que não iam mais nadar;

Na represa que é de rega
Perigosa, contaminada.
E o Agostinho lá entrega
A roupa à ganapada.
José Faria
(A foto representa o que foi a casa do benemérito Ausgusto Simões, posteriormente entregue e gerida pelo lavrador, caseiro da Cãmara da Maia, Sr. Agostinho.
Depois de restaurada transformou-se na Sede da Junta de Freguesia de Pedrouços.  - E foi aqui que os miúdos, todos nus, chegaram a pedir ao caseiro que lhes desse a roupita).
Minhas memórias de menino da rua.

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