domingo, 17 de setembro de 2017

ÀS PORTAS DA CIDADE





Do outro lado vê-se a cidade.
Sente-se o cheiro do reboliço e da agitação,
Da movimentação urbana,
Naquele frenesim de vai e vem.
A cidade não dorme, não descansa.
De noite e de dia sempre cheia de gente,
Em movimento constante, continuamente.
São como formigas num vai e vem
Apressado e urgente, desnorteado.
Enchem as grandes superfícies comerciais,
Como térmitas no interior dos seus enormes castelos,
Repletos de grutas e outros compartimentos interligados.
Na aldeia do Faria sente-se uma paz cúmplice e doentia;
Um silêncio embrulhado em marasmo…
E o ar da arte de comunicar, vaporiza-se!
Dorme o crescer, progredir, desenvolver…
E, antes que o sol se deite
Sobre o manto do Atlântico,
Já as ruas estão desertas, frias, desumanizadas.
Um frio calado e abafado, mesmo no verão,
Gela o silêncio ao tombar do dia…
E a recordação desperta em melancolia.
A lembrança de outros tempos que ficaram para trás.
Ainda se ouvem os cuidados chamamentos
Dos progenitores no cair da noite.
- Adriano, Zé, Mingos, Nanda,
Vinde para dentro que já são horas”.
Passado uns minutos o Luís,
Ainda a meia-noite vinha lá longe…
Ouvia-se à porta o ar zangado:
“A vossa mãe não vos chamou!?”
Mais rua acima, outro chamamento,
O último, talvez: - “Não te volto a chamar!”
Tudo ou quase tudo mudou.
Perdeu-se a noção do tempo da rua,
E do tempo da casa; e o da família,
Do tempo da diversão, e da responsável alegria,
Do tempo do progresso em união.
Do lado de cá da cidade,
As ruas perderam actividade,
São de passagem e não de convívio,
Ou diversão entre a vizinhança.
Só por altura dos santos populares
Algumas ruas, largos e pracetas,
Em determinados lugares,
Se enchem de convívio e diversão,
E até festa e alegria, na aldeia do Faria.
Do lado de cá da cidade do Porto,
Só os prédios continuam a crescer,
Com a mesma qualidade e altura,
E arquitectura, como os do lado de lá.
E lá de cima, dos mais altos,
Veem-se as casas velhas e abarracadas,
As ilhas, que vão apodrecendo abandonadas,
Recordando a miséria que por lá vegetou.
Algumas dessas velhas e antigas habitações,
Rasteiras e apodrecidas, ainda albergam almas,
Paradas no tempo e no seu espaço,
Sem jeito nem proveito à espera do seu fim.
A aldeia do Faria continua a mesma
Mas não é a mesma coisa!
Hoje o silêncio magoa, ninguém sabe nada.
O dinheiro manda mais do que a palavra,
E a aldeia já não é dos aldeões;
Está nas mãos de uns tantos silenciosos,
Autores do tempo calado e do frio social cortante,
Que abafa a cultura e o conhecimento.
Aos pés das grandes e altas construções,
Iguais às da cidade do outro lado da Circunvalação,
As ilhas e casas abarracadas gritam de podre e bolor,
Aos olhos do novo tempo calado que passa.
Uma vista degradante, disfarçada e camuflada
Pintada de outras tintas e outras cores,
Enganado o testemunho de um tempo social;
De um outro tempo do povo e da gente
Divertido, pobre e crente.
Hoje andam as ruas caladas.
Foge o povo para a cidade,
Apodrecem abandonadas,
As ilhas da Natividade
José Faria



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