quinta-feira, 5 de julho de 2018

MONTANTE PEDREIRO DA MAIA


A memória não se perde, sobretudo quando gravada em sentimento, dor, trabalho e fome.
Guardo pedaços dessa memória de um tempo marcado no batimento do aço sobre a pedra por entre os montes das terras da Maia.
De Pedrouços, muito cedo e de pé descalço acompanhava o meu pai nas pedreiras do Boi Morto ( nas bouças da rua D. António de Castro Meireles) e da Caverneira em Sangemil.

No Monte Penedo nunca andei, nem para limpar a “praça”, para os pedreiros montantes poderem traçar, partir e concluir os retângulos de pedra, separando, o rebo, o perpeanho, as raxas e o cascalho, terminando com o ancinho para juntar o zaralho (pedra muito miudinha para pavimentos e massas grossas na construção civil)).

Um dia fui com minha irmã, de idades entre os 9 e os 13 anos, de Pedrouços à pedreira do Monte penedo, a cerca de 8 ou 10 kms de casa. Quando chegamos ao montado, seguimo-nos pelo tilintar do trabalho do aço das marretas, picões, guilhos, brocas e, sempre atentos, não fosse soar o alerta de “Foooogo, foooogo! Já arde, cuidadooooo! Fogo! Já arde!” – Era assim sempre que se aprontavam para pegar fogo ao rastilho. Ia rebentar mais um tiro. Era o alerta para quem estivesse nos caminhos e carreiros da bouça nas imediações da pedreira, para encontrar abrigo, pois, por vezes uma “chuva” de pequenas pedras caiam por entre pinheiros e eucaliptos e de toda a vegetação.
Como deixamos de ouvir o tilintar das ferramentas, Perdemo-nos, eu e a minha irmã, com a lancheira do almoço do Luís “pisco”, nosso progenitor aguasantense.

Só quando voltou o barulho da pedreira, passado mais de uma hora, é que a descobrimos e lá chegamos.
E chateado, o “pisco”, de mãos calejadas e gretadas e pulsos cheios de papos, forças criadas por excesso de força, reagio chateado a pingar de suor da testa queimada pelo sol do monte:
Ai vindes agora, agora i-de à vossa vida, eu já fui comer uma sopa ao tasco.
E pronto, este foi um prefácio verdadeiro e sentido de introdução à minha

 HOMENAGEM AOS PEDREIROS MONTANTES DA MAIA


MONTANTE

A derrubar montanhas,
Montante de profissão,
De xisto ou de granito,
Rasgadas por sua mão.

Já o dia se levanta,
Se levanta a força, o grito:
Canta o pisco, chasco canta,
Canta o picão no granito.

Montante que lá no monte,
Tua força não conheces;
Sai de tuas mãos a pedra,
P’ra palácios. Desconheces?

É feito um furo no bojo,
Com a broca à pulsação,
Num compasso cantador,
Que dá força ao marretão.

É metida a dinamite,
Nas entranhas da montanha;
Mãos robustas, cuidadosas,
Não se percam na façanha.

Já o tiro rebentou!
Cuidado, não saltem guilhos.
Não vá a pedra que voou,
Deixar sem pai os teus filhos.

José Faria

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