quarta-feira, 11 de julho de 2018

O LUÍS ADORMECEU NO MONTE


Perante os conturbados tempos da "evolução e progresso" da humanidades, cheios de guerras e ódios e de refugiados perdidos, mortos e espoliados um pouco por todo o Mundo, lembrei-me de uma história de família, de um tio e primo, de há mais de cinquenta anos)


O JOSÉ LUIS ADORMECEU NO MONTE


Hoje o salto é imigrar,emigrar e migrar.
Tempos houveram, muito lá atrás da revolução de Abril de 1974, em que era muito difícil aos portugueses emigrarem, sem passaporte e sem razões que o estado o justificasse.
Assim, no tempo do regime político de ditadura fascista, para fugirem à fome, ao desemprego e ao cumprimento obrigatório do serviço militar com guerra no ultramar, muitos jovens emigraram a salto. Muitos eram presos e considerados refratários. Nalguns casos ainda ajustavam contas com a Polícia de Intervenção em Defesa do Estado /DGS, e saiam bem magoados e marcados, quando saiam. (!?)
Davam o salto para Espanha e daí para França, Canadá, Alemanha, Brasil e outros países.
Haviam portugueses que se dedicavam a “passadores”, do género dos que hoje fazem o mesmo com os refugiados abandonados à sua sorte em embarcações.
Muitos foram os grupos que a troco de uma determinada quantia de pagamento aos “passadores”, atravessaram montes e vales até Valença, onde, atentos e a coberto da noite, esperavam o render da guarda da fronteira, para darem o salto para o outro lado de Espanha.
Normalmente aguentavam horas encurralados a aguardar o momento mais preciso, de distração ou do render da guarda, para avançarem sem serem vistos. Por vezes atravessando o rio Minho a nado, nos sítios de fraca corrente.
Por lá andou também o Manuel “pisco” na construção civil em terras de França, que viria a adoecer gravemente e que, sem meios, ainda conseguiu dar o “salto” à boleia de regresso, para vir morrer a casa, às terras de Santa Maria de Águas Santas, na Maia.
Menos sorte teve o Zé “greta”, de Pedrouços, que no barraco da obra em construção, adormeceu uma noite para nunca mais acordar, devido ao fogareiro que lhe aquecia a noite fria e lhe roubou o oxigénio e a vida. Por lá ficou.
Numa dessas passagens a “salto”, o passador Luís levou mais um grupo, entre eles o seu irmão e o sobrinho.
Já passavam das quatro da madrugada quando chegaram ao ponto de vigia para controlar a movimentação na fronteira.
O luar estava claro, obrigando o grupo cansado e com sono, a ficar quase duas horas agachado no monte entre arbustos, de olhos postos no movimento dos carabineiros na fronteira e ponte sobre o rio Minho.
Por volta das seis da manhã, no render da guarda o Luís, diz baixinho ao grupo para avançar e o seguir, sem barulho.
Como coelhos temerosos, evitando a luz do dia que ia clareando, lá foram sorrateiros e conseguiram chegar ao lado de lá.
“ Pronto, estamos em Espanha! Estão todos!? – e deitou os olhos ao grupo.
- O meu sobrinho, o José Luis!? - Questeonou
Todos se entreolharam. Ninguém se apercebera se ele os tinha acompanhado ou não.
- Não me digas que ele adormeceu no monte!? – Exclamou o Luís.
Não podemos fazer nada, não podemos ir para trás, é muito arriscado.
Ainda esperaram algum tempo a ver se ele aparecia, mas tiveram que seguir caminho.
Na verdade, o José, moço dos seus 18 anos, cansado e ensonado adormeceu e ficou só no monte.
Só dois dias depois, quando o seu tio regressou a casa a Santo Tirso, se encontrou com o José, que lhe confirmou que tinha adormecido e que acordara só a meio da manhã.
Valeu-lhe a sorte de, descendo à estrada, conseguir uma boleia de um camionista que o deixou a poucos quilómetros de casa, ali para os lados de Valongo.

Contos de José Faria
Fotos: Do monte, do Blog "Bom dia europa" e Manuel, aguasantense que a salto foi e a salto regressou para vir morrer à Maia.


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