EM SÃO MIGUEL O ANJO

segunda-feira, 8 de março de 2021

A BICHA MOURA DA MAIA

A BICHA MOURA
Santa Maria de Avioso

Segundo uma notícia de Nelsom Maia, publicada num jornal regional da Maia, existiram uns terrenos anexos a uma pequena floresta, entre Gondim e Santa Maria de Avioso, com aspeto muito fantasmagórico, sobretudo à noite devido à falta de iluminação pública. Perto desse fantástico “mundo verde” ao entardecer, um trolha meio alcoolizado que regressava do trabalho, ouviu uns gemidos no meio do mato. O homem tentou ver se era alguém a precisar de auxílio, mas em vão, não estava ninguém. Mas os gritos e lamentos uivantes persistiam. Assustado, correu para casa e foi deitar-se. Mas mal dormiu envolto em pesadelos.

No dia seguinte, ainda mal dormido, foi matar o bicho ao tasco, onde contou e fantasiou o sucedido às pessoas presentes, dizendo-lhes que vira um ser maravilhoso e medonho, metade mulher e metade de cobra, era a Bicha-Moura! E insistia: Era a Bicha Moura!

O rumor espalhou-se pela terra, suscitando um interesse desmedido pelo local para avistar o tal ser fantástico. A população estava tão envolvida no acontecimento que ia aumentando, ainda mais, as valências da dita bicha. Depois começaram a ouvir-se relatos de que a Bicha-Moura comia as galinhas e coelhos dos moradores vizinhos. Houve até quem descobrisse a “pia” onde ela bebia e que fazia encantamentos devido à sua beleza.

Porque estou empenhado em recriar as lendas das antigas 17 freguesias da Maia, e criar onde elas ainda não existem, complementando-as com quadras poéticas descritivas, hoje, ao pedalar pelas terras da Maia, despertei a declamar as quadras que criei, para este conto ou lenda, junto da igreja de Santa Maria de Avioso.

A BICHA MOURA

Em Santa Maria de Avioso,

E mais na sua proximidade;

Caminhava humilde e tão pesaroso,

Um homem cansado de meia-idade.

 

Era um operário de corpo caloso,

De paz e humildade tão destroçada;

Que forçado dia mais trabalhoso,

Bebeu em copos mais quantidade.

 

Era já noite e ao regressar,

Horas depois de bem ter bebido;

Ficou parado atento a escutar,

Entre o silvado tanto gemido.

 

Não sabendo se as vozes eram de gente,

Ou de alguma alma ou cantadoura;

Imaginou ser-se vidente,

E que eram gemidos de Bicha – Moura.

 

Sem saber a quem se socorrer,

Pôs-se dali a medo a andar;

Foi dormir, se recolher,

Vestido chegou e se foi deitar.

 

De manhã cedinho quando acordou,

Meio ensonado e entorpecido;

Logo foi ao tasco onde contou,

O que ouvira e tinha acontecido.

 

Começou excitado logo a dizer,

A todos quantos estavam presentes;

Que a Bicha-Moura anda a comer,

Coelhos e galinhas a toda a gente.

 

A história com toda esta descrição,

Do trolha marado e muito piela;

Correu a informar a população,

De toda esta lenda que se fala dela.

 

Havia quem afirmasse e dissesse,

Que a bicha escondida ali domava;

Como se forte feitiço tivesse,

Com a sua beleza encantava.

 

Isso nunca se viu ou existiu,

Nem gemidos que dizem ser dela;

Nunca ninguém viu nem sequer ouviu,

Foram invenções do trolha piela.

08/03/2021 - José Faria


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