quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A FOME

 
 
À fome,
Quando ela te for apresentada,
Vais-lhe dizer o teu nome;
Muito prazer,
Não deseja tomar nada!?

Mas não virá de repente,
A descarnada,
Vai comer-te lentamente
Passo a passo,
Subindo cada degrau
Até ao cimo da escada.

São 5 euros nas batatas,
Mais cinco no detergente,
Mais trinta no bacalhau
Até ficares sem mais nada.

Quando fores apresentado à fome,
Vai-te doer a barriga
E dar-te volta à cabeça,
E vais estar pronto a roer
Qualquer coisa que apareça.

Vão subir-te ratos pequenos
Por dentro das tuas veias,
Fica-te a garganta seca
Só habitada por teias.

Fica-te a boca calada,
E quando quiseres falar.
Levas por cima porrada,
Que és pago para trabalhar
E nunca para ter ideias.

À fome
Quando ela te for apresentada,
Vais-lhe dizer o teu nome.
Muito prazer,
Não deseja tomar nada!?

Ou talvez não seja assim,
Talvez seja ao contrário;
Talvez não estejas disposto
A pagar à tua conta
Os juros ao usurário.

Quando fores apresentado à fome
Olha-a de frente e pergunta:

Quem é que me prende a mão?
Quem é que me corta o passo?
Quem é que me bebe o sangue,
Pela garrafa que faço?
Quem é que me come esta fome
Que me tortura, que eu passo?

E não esperes pela resposta,
Constrói tu os teus caminhos
E faz dessa fome. Força,
E faz dessa força, gente,
E à fome faz-lhe frente,
Agarra-a pelos colarinhos,
Enfia-a pela boca abaixo
De quem fabricou a fome
Dos que raparam o taxo!

Do autor que muito admiro: José Fanha

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