EM SÃO MIGUEL O ANJO

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

ACORDA AMIGO


Meu companheiro e amigo
De mente manipulada,
Nunca me zango contigo,
Mas teu caminho não sigo,
Tua voz por outros fala.

Dão-te veneno a beber,
E tu fazes-lhes a vontade;
Esqueces que o saber,
A razão tem que exercer,
Para construir a verdade.

Dão-te festas e alegria,
Uns copos e mais sangria,
Pé de dança e diversão;

Engana-te a fantasia,
Vestida de hipocrisia,
Senhora da exploração.
José Faria

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

SERÁ PRESIDENTE AUGUSTO SIMÕES

SERÁ PRESIDENTE DA CÂMARA DA MAIA
Augusto Simões Ferreira da Silva

De Pedrouços.
Ontem como hoje, as intrigas e manobras que se desenvolvem e se criam entre os candidatos no decorrer d as eleições, não perdem as características engenhosas de candidaturas fantasmas ou reais, prontas para serem eleitas ou para desistirem em favor dos que pareciam adversários.
Mas será seguramente Augusto Simões, comendador e lavrador de Pedrouços o futuro presidente da Câmara Municipal da Maia.
Os tempos de grande intervenção política e social, anunciavam grandes mudanças que poderiam eclodir a qualquer momento. Nessa correria ao poder da Câmara Municipal envolvia-se freneticamente Sá e Melo, chefe henriquista da Maia, que não se deixava levar facilmente e possuía aquela costela de político vertical. Por isso tomou a peito evitar o acordo que lhe ia desarranjar para sempre a igrejinha camarária da Maia e anular por completo a sua influência politica no concelho.
E tão bem mexeu os pauzinhos que, dias depois, no salão do Governo Civil, onde ia assinar-se o acordo progressista – franquista – regenerador, a tempestade desabou com fragor tão intenso que o Sr. José Arroio, seguindo o conselho do irmão, baralhou, … e tornou a dar.
Ficaram parceiros henriquistas e teixeiristas, contra franquistas e progressistas.
Quer dizer, a vitória pertencerá aos primeiros, dado que os outros vão à urna, o que não cremos. Será presidente da Câmara Municipal, ao que nos dizem, Augusto Simões, de Pedrouços, que milita no Partido Regenerador.
A Câmara da Maia ficará, portanto, constituída por henriquistas e regeneradores.
A verdade é que Augusto Simões e os aliados de última hora, só não ganharam as eleições locais porque, entretanto, registara-se a revolução do 5 de Outubro, que faria passar por alguns dissabores e umas tantas injustiças o pequeno-grande Sá e Melo.
(in Almanaque da Maia – 1983 - de Álvaro Aurélio do Céu Oliveira)
Cento e sete anos depois, a história repete-se, também às portas de Outubro mas sem revolução republicana que impeça o programa de bastidores.

domingo, 17 de setembro de 2017

ÀS PORTAS DA CIDADE





Do outro lado vê-se a cidade.
Sente-se o cheiro do reboliço e da agitação,
Da movimentação urbana,
Naquele frenesim de vai e vem.
A cidade não dorme, não descansa.
De noite e de dia sempre cheia de gente,
Em movimento constante, continuamente.
São como formigas num vai e vem
Apressado e urgente, desnorteado.
Enchem as grandes superfícies comerciais,
Como térmitas no interior dos seus enormes castelos,
Repletos de grutas e outros compartimentos interligados.
Na aldeia do Faria sente-se uma paz cúmplice e doentia;
Um silêncio embrulhado em marasmo…
E o ar da arte de comunicar, vaporiza-se!
Dorme o crescer, progredir, desenvolver…
E, antes que o sol se deite
Sobre o manto do Atlântico,
Já as ruas estão desertas, frias, desumanizadas.
Um frio calado e abafado, mesmo no verão,
Gela o silêncio ao tombar do dia…
E a recordação desperta em melancolia.
A lembrança de outros tempos que ficaram para trás.
Ainda se ouvem os cuidados chamamentos
Dos progenitores no cair da noite.
- Adriano, Zé, Mingos, Nanda,
Vinde para dentro que já são horas”.
Passado uns minutos o Luís,
Ainda a meia-noite vinha lá longe…
Ouvia-se à porta o ar zangado:
“A vossa mãe não vos chamou!?”
Mais rua acima, outro chamamento,
O último, talvez: - “Não te volto a chamar!”
Tudo ou quase tudo mudou.
Perdeu-se a noção do tempo da rua,
E do tempo da casa; e o da família,
Do tempo da diversão, e da responsável alegria,
Do tempo do progresso em união.
Do lado de cá da cidade,
As ruas perderam actividade,
São de passagem e não de convívio,
Ou diversão entre a vizinhança.
Só por altura dos santos populares
Algumas ruas, largos e pracetas,
Em determinados lugares,
Se enchem de convívio e diversão,
E até festa e alegria, na aldeia do Faria.
Do lado de cá da cidade do Porto,
Só os prédios continuam a crescer,
Com a mesma qualidade e altura,
E arquitectura, como os do lado de lá.
E lá de cima, dos mais altos,
Veem-se as casas velhas e abarracadas,
As ilhas, que vão apodrecendo abandonadas,
Recordando a miséria que por lá vegetou.
Algumas dessas velhas e antigas habitações,
Rasteiras e apodrecidas, ainda albergam almas,
Paradas no tempo e no seu espaço,
Sem jeito nem proveito à espera do seu fim.
A aldeia do Faria continua a mesma
Mas não é a mesma coisa!
Hoje o silêncio magoa, ninguém sabe nada.
O dinheiro manda mais do que a palavra,
E a aldeia já não é dos aldeões;
Está nas mãos de uns tantos silenciosos,
Autores do tempo calado e do frio social cortante,
Que abafa a cultura e o conhecimento.
Aos pés das grandes e altas construções,
Iguais às da cidade do outro lado da Circunvalação,
As ilhas e casas abarracadas gritam de podre e bolor,
Aos olhos do novo tempo calado que passa.
Uma vista degradante, disfarçada e camuflada
Pintada de outras tintas e outras cores,
Enganado o testemunho de um tempo social;
De um outro tempo do povo e da gente
Divertido, pobre e crente.
Hoje andam as ruas caladas.
Foge o povo para a cidade,
Apodrecem abandonadas,
As ilhas da Natividade
José Faria