VASCO DA GAMA E A HISTÓRIA QUE NÃO NOS CONTARAMO MASSACRE DOS PEREGRINOS E OUTRAS ATROCIDADES
“A vinte e nove de setembro de 1502, naus
portuguesas avistaram na costa indiana um barco com centenas de pessoas que
regressavam de Meca para Calecut. Vasco da Gama procurava há dias atacar
peregrinos muçulmanos que ali passavam e tinha um plano sanguinário para os que
se encontravam a bordo desta embarcação: «andando algumas das nossas
naus em procura das que vinham de Meca, a S. Gabriel se encontrou com uma de
Calecut que dali voltava com duzentos e quarenta homens, sem falar nas
mulheres e crianças, que eram bastantes, e que todos voltavam daquela peregrinação:
deu-lhes logo caça, e tendo disparado alguns tiros de bombarda, para logo se
renderem».
Os passageiros estavam indefesos e logo pediram misericórdia, oferecendo todas as riquezas que tinham a bordo e ainda mais, para sobreviverem: «O Almirante via o que se passava por uma escotilha, e algumas mulheres tomavam nos braços seus filhinhos e os levantavam ao ar persuadindo-o assim a que tivesse piedade daqueles inocentes; os homens faziam igualmente sinal com a cabeça que se queriam resgatar a todo o custo; e é certo que com a riqueza que havia naquela nau, se podiam tirar do cativeiro quantos cristãos estão presos no Reino de Fez, e ainda sobraria muito para El Rei N.S.».
Vasco da Gama não queria apenas os bens dos
peregrinos, tentou pegar fogo ao barco e mandou disparar mais tiros de canhão.
As mulheres e homens resistiram bravamente com as poucas armas e pedras que
tinham. Mas, depois de dias de perseguição e ataques, a embarcação foi
finalmente capturada e saqueada. A três de outubro de 1502 - e, aqui, variam os
relatos - mulheres, crianças e homens ou foram trancados no porão; ou amarrados
ao navio; ou foram impedidos de sair a mando de Vasco da Gama, que ordenou que
queimassem vivas todas aquelas pessoas e, de seguida, mandou afundar o barco: «fez o Almirante pôr fogo àquela nau, que ardeu com quantas
pessoas se achavam dentro, com muita crueldade e sem comiseração alguma».
O escrivão Thomé Lopes que registou as palavras
que tenho citado e foi testemunha ocular do sucedido, deixou-nos o mais longo e
pormenorizado relato destes acontecimentos. Marcado profundamente pelo
massacre, escreveu o seguinte: «lembrarei toda a minha vida».
Já o cronista Gaspar Correa, que não fez parte
desta viagem, narra um final diferente, mas também violento. Depois de Vasco da
Gama recusar a proposta desesperada dos peregrinos de encherem os barcos
portugueses com especiarias em Calecut, disse «vivos haveis de ser queimados»,
“mandou dar fogo à nau” e ficando «os Mouros a nado, os batéis andaram às
lançadas». Refere ainda que os outros capitães portugueses tentaram persuadir
Vasco da Gama a não massacrar as pessoas, aconselhando-o a aceitar as ofertas
que os peregrinos lhes faziam.
Fernão Lopes de Castanheda, outro cronista do
século XVI que viveu na Índia, diz que os peregrinos seriam trezentos «fora mulheres e meninos» e «o fogo pegou de maneira que ardeu metade da nau e parte dos
mouros se afogaram nela, e parte foram mortos no mar onde se deitarão, e assim
foram todos mortos». Nesta narrativa, provavelmente para aligeirar a
brutalidade dos portugueses, Castanheda refere que as crianças foram retiradas
do barco para serem convertidas ao cristianismo.
TERROR EM CALECUT
Possivelmente, o massacre dos peregrinos de 1502
foi o evento mais sinistro do rasto de carnificina deixado por Vasco da Gama
nas suas viagens à Índia. No entanto, este foi apenas um dos vários episódios
de brutalidade perpetrada por este navegador português. Pouco dias depois deste
massacre, Vasco da Gama bombardeou severamente Calecute, um dos portos mais
importantes da região: «e todo o dia até à noite bombardeou a cidade, com que
lhe fez grande destruição». O objetivo desta sua segunda viagem à Índia era
dominar o comércio desses mares, expulsar a comunidade muçulmana da cidade e
vingar os portugueses mortos em 1500 durante um conflito com os comerciantes
locais.
Nesses dias de fim de outubro, de frente para
Calecute, Vasco da Gama enforcou nos mastros das suas naus marinheiros “mouros” e “cafres” [negros]
raptados em embarcações mercantis locais: «ordenou também que os
guindássemos bem acima, para serem mais bem vistos […] Estava na praia um
sem-número de gente, e saía muita da cidade para ver os enforcados, estando
como insensatos a olhar para eles». E, depois, cortou-lhes as mãos,
os pés e as cabeças, lançando-as à água para aterrorizar a população
local: «À boca da noite mandou o Almirante dizer às naus que tirassem os
enforcados, e lhes cortassem as cabeças, as mãos, e os pés, e que deitassem ao
mar os toros dos corpos, remetendo todos os outros membros para a sua nau, os
quais fez embarcar em uma almadia [canoa], das que tinham sido aprisionadas; e
mandou escrever em língua indiana, a um chamado Frangola, um escrito por esta
maneira:
«Eu vim a
este porto com boa mercadoria, para vender, comprar, e pagar os vossos géneros;
estes são os géneros desta terra: eu vo-los envio de presente […]
Este episódio, assim como o massacre dos
peregrinos, é retratado de diferentes formas, mas todas as crónicas retratam a
sua brutalidade. Por exemplo, Gaspar Correa escreve que Vasco da Gama mandou
desmembrar um grupo de tripulantes de uma embarcação de transporte de arroz que
foi saqueada e, depois: «a todos os negros assim
justiçados mandou atar os pés, porque não tinham mãos para se desatarem, e para
que não se desatassem com os dentes, com paus mandou dar neles, que nas bocas
lhos meteram para dentro, e foram assim carregados uns sobre outros embrulhados
no sangue que deles corria»». De seguida, deu-lhes fogo numa barca que
enviou para terra. Diz o mesmo cronista, que Vasco da Gama ordenou que
cortassem as orelhas, nariz e mãos a um religioso local, colocando-lhe uma
mensagem ao pescoço dizendo: «que mandassem fazer caril para
comer».
Meses antes, depois de deixar um rasto de
violência na costa africana, recorda também Gaspar Correa que quando o
navegador chegou a Quíloa, hoje na Tanzânia, para extorquir uma fortuna ao
monarca local: «Houve na gente grande espanto, vendo entrar
no porto tão grande armada, e conhecendo que era nossa, de que já tinham tanto
sabido das cousas de Moçambique e Melinde, que toda a gente tomou grande medo».[ É
preciso lembrar que uma das mais célebres obras da ourivesaria portuguesa, a
Custódia de Belém, atribuída ao ourives e dramaturgo Gil Vicente, foi feita com
o ouro extorquido em Quíloa nesta viagem[.
Também um flamengo que era tripulante da armada
portuguesa, relata que em Calecute: «tomámos ali dois navios
grandes e matámos toda a gente e queimámos os navios diante da cidade».
E, no regresso a Portugal: «encontrámos uma ilha onde
matámos cerca de 300 homens e aprisionámos muitos».
HERÓI
OU CARNICEIRO?
O historiador indiano, Mahmood Kooria, refere
como massacre dos peregrinos de 1502 é um tema recorrente nas memórias sul
asiáticas, sendo narrado em cantigas, baladas, livros e no cinema. As imagens
que coloquei neste texto pertencem ao filme indiano em malaiala, Urumi (2011),
que retrata a história de um herói que pretende vingar a morte de seu pai às
mãos dos portugueses. No início do filme, surge ficcionado o massacre
dos peregrinos mostrando um Vasco da Gama implacável, louco e sanguinário. Numa
das cenas, perante uma criança, o navegador corta a língua e as orelhas de um
negociador de paz local, cozendo-lhe depois as orelhas de um cão à cabeça. No
fim, o narrador lembra ironicamente que: «Agora, o mundo celebra-o como
um grande homem!».
Numa outra perspetiva, em Portugal, Vasco da Gama
é lembrado como um dos maiores “heróis” da história nacional. O navegador dá
nome a pontes, ruas, avenidas, praças, largos, escolas, clubes, centros
comerciais e restaurantes, e tem estátuas erigidas por todo país. É vangloriado
na imprensa e televisão, em museus, nas salas de aula, em encontros de
empresários e nos discursos oficiais de Estado. Fala-se de um suposto
descobridor, ignorando a devastação que deixou nas suas viagens à Índia e suas
ações terroristas. Principalmente, esquece-se as centenas de pessoas que
tiveram a infelicidade de atravessar o seu caminho, sendo assassinadas de forma
atroz, por fanatismo religioso, sede de poder, etnocentrismo, crueldade e,
principalmente, por ganância. Na verdade, já é tempo de enfrentar a verdadeira
história de Vasco da Gama, “O Carniceiro”.”
Fonte: - https://www.buala.org/pt/a-ler/vasco-da-gama-o-massacre-dos-peregrinos-e-outras-atrocidades
A IA diz-nos: - “Vasco da Gama é oficialmente lembrado na
história portuguesa como o heroico navegador que abriu a rota marítima para a
Índia em 1498 , mas a historiografia moderna também o descreve como uma
figura cruel,
violenta e implacável .frequentemente
apelidado de "o açougueiro",
devido aos métodos brutais que ele usou para impor o domínio português no
Oceano Índico”.
(Por
José Faria)



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