terça-feira, 3 de janeiro de 2012

VOA PENSAMENTO



Andava o pensamento escondido,
Num desabrochar constante, em crescimento.
E só em quadras de Natal é que era lido,
Num concurso anual e num só tempo.

Dar-se a ler, foi desejo sempre querido,
De caminhar de braço dado com o vento;
É já sonho real conseguido,
E cultural de grande ensinamento.

Um mais saber do conto versejado,
De escritores a surgir à luz do dia;
Com a arte de escrever e seu talento.

Que essa entrega neste encontro almejado,
Se divulgue a história e a poesia,
E que em mim voe o pensamento.

José Faria

ROMARIAS DE PORTUGAL


 
Estoura no céu fogo de alegria,
Um novo despertar da tradição;
É mais um convite p´rá romaria,
A todas as almas da população.

Ouvem-se Missas na ampliação,
São rezas no ar da freguesia.
Nas cerimónias em comunhão,
Há confessos, recados com homilia.

E lá vem a música da banda a tocar,
Pelas ruas centrais dando alegria;
De passo acertado vem a marchar,
Animam a festa com primazia.

E há mais foguetes a estourar,
Por tradição, hábito e moda;
A festa e a guerra fazem lembrar,
Agradam a uns, outros incomoda.

Pedem perdão os pecadores,
Que voltarão de novo a pecar;
Rezam os pobres com ricos senhores,
Esquecem a fome e o esbanjar.

Entre fiéis anda o peditório.
A todos apelam contribuição;
Terlinta na cesta o ofertório,
Por entre a reza e a oração.

E chega o repasto, a reunião
Com as famílias a festejar;
Já se preparam para a procissão,
Onde tantos cristãos vão participar.

Tantos andores tão bem enfeitados,
Aguardam os ombros que os levarão
Ao povo nas ruas. São aguardados
Por curiosidade e devoção.

Por entre enfeites de decoração,
De comes e bebes da festividade;
Misturam-se os sons da diversão,
Com os da Missa da Natividade.

É a fé e o profano em comunhão,
Por apelo do sino tão badalado;
Ribombam os bombos em digressão,
E as bandas de música tocam no adro.

Lá vem a fanfarra alegre, fogosa,
Seguem-na estandartes no ar oscilando;
Manifestação tão religiosa,
Aos olhos do povo se vai mostrando.

Momento de fé da população,
De todos os pobres e ricos senhores;
A majestosa, e grande procissão,
É gosto de ateus, crentes, pecadores.

Junto ao quartel já está parado,
S. Joaquim da Corporação;
Pelos Bombeiros é venerado,
Que o levam a ombros na procissão.

Retoma-se a marcha, logo se detém,
Toda esta entrega da comunidade;
E já no quartel entra também,
A Padroeira Natividade.

Choram sirenes num silvo gritante,
Com emoção tão derradeira;
E o ar estremece arrepiante,
De apelo à Senhora Mãe Padroeira.

E segue adiante a devoção,
Suor nos rostos, dor na caminhada;
Parece sem fim a manifestação,
De tantos andores e tão devotada.

Vem a Padroeira, nossa Senhora,
Seguida do Palio e ostentação;
À sua passagem o povo que ora,
Vai se curvando de veneração.

Continuam foguetes a rebentar,
Bem lá no alto largando fumaça;
Termina com bandas sempre a tocar,
A majestosa cheia de graça.

Há gente descalça, mais povo a seguir,
Crianças ao colo e velas na mão;
Muitas promessas estarão a cumprir,
Por fé à Senhora e devoção.

Volta-se o porco ainda no churrasco,
Servido em sandes com vinho e cerveja;
Já se vê o osso ao chegar ao casco.
Termina o sermão dado na igreja.

E os dois conjuntos de animação,
Juntam o povo no pé de dança;
Os “Iniciadores” e o “Diapasão”,
Activam o baile e a confiança.

Ao chegar a noite tão divertida,
Estalam no céu os clarões;
E o povo dança na grande avenida,
Dançam romeiros e foliões.

Só à meia-noite sossega o chão,
De tanto pisado por toda a gente;
Com olhos no céu na iluminação,
Vê chuva de luz incandescente.

O fogo no fim estrondosamente,
Termina com bombas no teto do povo;
Espectáculo medonho no peito da gente,
Retoma-se o baile e folia de novo.

A festa vai longa é já madrugada,
Com sono a alegria já esmoreceu;
E a romaria tão derreada,
Abandona a noite que adormeceu.

José Faria

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

MONTANTE DA MAIA



Há muito que se perdeu do ouvido e do tempo, aquele tilintar persistente ou aquelas vozes de alerta: - “fooogoo, já arde! Foogo, fogo, já arde! Minutos depois, o estrondo, o rebentamento da penedia seguido por vezes, de uma chuva de pequenas pedras a cair do céu por entre giestas, pinheiros e eucaliptos.
Era a vida dos montantes pedreiros que extraíam a pulso e a dinamite a pedra dos montes, das Como o meu progenitor conhecido naquelas terras da Maia por Luís Pisco, haviam centenas de montantes espalhados pelas muitas pedreiras da freguesia e Vila de Águas Santas: Milheiros, Monte Penedo, Caverneira, Boi Morto e de outras tantas das freguesias do concelho.
Uma vida rude que exigia resistência, força e até brutalidade dos homens que a pulso, ferro e fogo, desbravavam montes de granito sem a existência de máquinas, que ainda as não havia.
Também na “razão destes versos” não poderia deixar de contemplar a bravura e o engenho daqueles que faziam da pedra o que queriam com meios tão artesanais. Conheciam todas as características e os veios e pontos fracos da pedra no seu estado natural como as suas calejadas e gretadas mãos, de pulsos papudos por forças provocadas por excesos de luta e de resistência humana.
MONTANTE
A derrubar montanhas,
Montante de profissão,
De xisto ou de granito,
Rasgadas por sua mão.

Já o dia se levanta,
Se levanta a força, o grito:
Canta o pisco, chasco canta,
Canta o picão no granito.

Montante que lá no monte,
Tua força não conheces;
Sai de tuas mãos a pedra,
P’ra palácios. Desconheces?

É feito um furo no bolo,
Com a broca à pulsação,
Num compasso cantador,
Que dá força ao marretão.

É metida a dinamite,
Nas entranhas da montanha;
Mãos robustas, cuidadosas,
Não se percam na façanha.

Já o tiro rebentou!
Cuidado, não saltem guilhos.
Não vá a pedra que voou,
Deixar sem pai os teus filhos.
José Faria

PUTOS EM PELOTE


Pé descalço na calçada,
Por carreiros e caminhos
Tão mexida ganapada
Na brincadeira e aos ninhos.

E no roubar das espigas
Com o lavrador ausente
Acomodavam barrigas
A dar letra à fome, ao dente.

Se o tempo quente apertava
Vinha o banho a qualquer hora
E a alegria chafurdava
Da ganapada de outrora.

Numa represa de rega,
Em pelote a pardalada;
Na água e lodo se esfrega,
No mergulho e na braçada.

Distraídos no banheiro ,
Já se estava a aproximar,
O lavrador sorrateiro
A roupa lhes foi tirar.

Pegou nela num braçado
Feita trouxa, foi-se embora,
E logo os putos à nora...
Olham num e noutro lado.

Por entre o milho andou
O bando a procurar,
Mas a roupa não achou,
Já com alguns a chorar.

O lavrador avistaram,
Com a roupa, campos fora.
E todos se interrogaram:
Como é que vamos embora?

Outra forma não acharam:
Deitaram pés ao carreiro,
Com as mãozitas taparam,
A pilita e o traseiro.

Lá foram nus, sempre a andar,
E a meio da caminhada,
Tantos mirones a olhar
Juventude envergonhada.

Quase pedindo esmolinha
Ao lavrador a apelar,
Que lhes desse a roupinha
Que não iam mais nadar;

Na represa que é de rega
Perigosa, contaminada.
E o Agostinho lá entrega
A roupa à ganapada.
José Faria
(A foto representa o que foi a casa do benemérito Ausgusto Simões, posteriormente entregue e gerida pelo lavrador, caseiro da Cãmara da Maia, Sr. Agostinho.
Depois de restaurada transformou-se na Sede da Junta de Freguesia de Pedrouços.  - E foi aqui que os miúdos, todos nus, chegaram a pedir ao caseiro que lhes desse a roupita).
Minhas memórias de menino da rua.

RECORDAÇÕES

 Era puto como tantos,
Na rua soltos à toa,
Sem que a fome visse a broa,
Perdidos nos seus encantos.

Conhecer todos os campos,
De fruta verde mas boa:
Mas se o grito, o alerta soa,
Correm todos como bandos.

Tudo era devorado,
Fruta, cebolas, cenouras
E o grépio do caminho.

Quase sempre escorraçado,
Todo o filho de mãe moura,
Que não era rapazinho.

Colégio, ama, infantário,
Eram coisa para meninos:
Putos da rua sozinhos,
Cresciam noutro fadário.

De quantos bandos fiz parte,
Nessa infância ignorada.
Por nunca ser ajudada,
Sobreviver era uma arte.

Inventavam-se guerreiros,
E outra tanta fantasia:
Cobóys, índios, valentia!
Cavalos e cavaleiros

O jogo da sameirinha,
Com os putos num magote;
E havia sempre um pichote
Que fazia batoteira.

Era o jogo do peão,
Do crivo e da pedrinha
E outro, da caçadinha,
Bate fica e ao ladrão.

E a volta a Portugal,
Com laranjinhas e bugalhos,
Com pontes, túneis e atalhos.

E outras tantas diversões,
Inventavam putos bons,
Vida feita de frangalhos.


E foi o rio Leça banheira,
Dos putos da minha idade;
Mergulho da mocidade,
No perigo da brincadeira.

O jogo da bola em água,
No rio que sem parar,
Foi um dia lá ficar,
Um de nós que deixou mágoa.

A perda de um companheiro,
Não se esquece em qualquer tempo,
A dor mancha o sofrimento!

Era assim numa outra era,
Impávidos putos de outrora:
Com saudade e com lamento

Arredores dos grandes centros
Dormitórios do trabalho
Isentos de agasalho
Social, contra os ventos.

Não eram as voltas do tempo,
Nem o uivar das noites frias
Que roubavam alegrias:
Mas fome, dor e sofrimento.

Quantos filhos do país
Botões da mesma raiz
Vegetaram na existência?

Quantas almas de petiz
De irreal vida infeliz
Foram vítimas da inocência?


Este tempo já roubou
A esse tempo a lembrança,
Nosso tempo de criança
Por onde a fome passou.

Nessa era já não estou
Recordo-a por segurança.
Seja sempre só lembrança
Jamais digam que voltou.

E da luta sem sarilhos
Do esforço p’ra viver,
A culpa vive sem merecer.


Pois a vida não tem culpa
Pelo homem avessada
Nesse tempo esfarrapada.

José Faria

A MINHA CIDADE



Foi já cidade! – Disseram assim dela.
Religiosa sempre a sua gente,
Edificaram certo dia uma capela,
Guardando lá o Omnipotente.
Uma Via-sacra, logo, posteriormente;
Espalharam por uma, outra ruela;
Servindo povo com amor e fielmente,
Indicando o caminho à terra crente:
Antepassado nosso povo de outra era!

De Petrauzos e Pedrouzos fala a história,
Enquanto o tempo não perder memória!

Passaram anos, séculos, até lembrança!
E os filhos continuam sempre novos.
De geração em geração nova esperança:
Renovando a lei da vida e a dos povos.
Ouvimos hoje um novo pensamento,
Um mais saber da vida bem diferente,
Contudo conta mais a história, o tempo;
Obrigando-nos a assumir, pois é urgente,
Servindo mais, com mais discernimento.
José Faria

OBRIGAÇÃO


Pedrouços é o lugar,
Onde nasci, me criei,
E dele tudo o que sei,
Aprendi-o no andar.

E se aqui desejo estar,
Onde primeiros passos dei,
Razão há porque fiquei:
Contributo à terra dar.

Ser maiato me contento,
Na obra do bem-estar.
Em me dar é meu intento.

Rebentos tenho a dar,
Ao bem-estar, contentamento,
Sou raiz presa no tempo.

À minha terra, meu berço.

FESTAS DA NATIVIDADE DE PEDROUÇOS - 2026

  FESTA E ROMARIA DE PAZ E ALEGRIA POR NOSSA SENHORA DA NATIVIDADE - Pedrouços – Maia – Setembro de 2026   Estoura no céu o fogo da alegria,...